09 Janeiro 2008

Igreja Românica de Cedofeita

A Igreja Românica de Cedofeita é uma velha senhora cansada que por vezes condescende um sorriso. O tempo vestiu-a de solenidade, mas a firmeza milenar que ostenta é apenas o disfarce de uma alma suave. Viu crescer à sua volta, como plantas, os edifícios que hoje constroem o Porto e por isso conhece todas as manhas da cidade, os seus bairrismos, as suas paixões, as intrigas entre granitos, as suas brejeirices e acontecimentos políticos. Sabendo de cor todas as histórias, arregala os olhos, sorri um pouco atrapalhada e continua o seu estático caminho pelos séculos.
De tão velha que está, deve sentir-se cansada. Muito cansada. Mais do que cansada, deve sentir-se farta da má educação e insolência com que por vezes a tratam. Até há bem pouco tempo, as suas portas de madeira esverdeada eram um mosaico de pequenos ditos, pequenas verdades e pequenas mentiras, de números de telefone, de desenhinhos e cores pseudo artísticas de grafitters nocturnos. Parece-me que a velha e entroncada Igreja consegue aguentar estas pequenas inspirações nas suas portas, não suporta, isso não, grandes expulsões no seus cantos… De facto, todos os dias alguém se lembra de esvaziar a bexiga num dos cantos mais escuros e recuados da Igreja. Tudo isto por baixo de ditos latinos cinzelados na pedra. Um crime.
Há uns meses, no entanto, alguém se compadeceu da cansada Igreja. Encontrei-a cuidadosamente lavada, arejada e as suas portas repintadas com um verde cheio de essência, enfim, encontrei-a decente! Pareceu-me uma senhora velha que se arranjou como no antigamente para se ir encontrar com as amigas. Estava contente, a renascida Igreja!
Ora, este texto não acaba bem. Passei ontem por ela e acenei-lhe, dizendo-lhe adeus, mas as suas pedras estavam outra vez macambúzias: na grande porta da frente, pintadas a graffiti cor-de-laranja, duas escorridas, grandes e miseráveis suásticas gozavam da sua anterior alegria!

7 Comentários:

  • Às 1/09/2008 10:52 PM , Anonymous Anónimo disse...

    É uma vergonha!
    Ainda tem o discernimento de lhes chamar arte urbana!
    Por amor de Deus!

    Rita M.

     
  • Às 1/10/2008 8:51 AM , Anonymous B.H. disse...

    A Rita M. deveria querer dizer "descaramento" e não "discernimento". Foi um pequeno engano, desculpa-se.
    O que não se desculpa é confundir vandalismo de neo nazis com grafittis, que de facto se pode classificar como arte urbana. E ela é, por vezes, muito boa.

     
  • Às 1/10/2008 12:48 PM , Anonymous Anónimo disse...

    Grafitti pode ser arte, se for bem executado e se não for forma de ofensa /invasão de liberdade. Temos como exemplo o mural da ponte da arrábida, que na minha opinião está lindíssimo !

    Vandalismo e Arte nunca podem ser confundidos. É o mesmo que admitirmos como atitude correcta a daquele 'artista' que expôs a violenta morte de um cão - como forma de protesto...


    MarianaSilva

     
  • Às 1/10/2008 1:27 PM , Anonymous Anónimo disse...

    Eu nao confundi, mas para que se saiba, muitas dessas cruzes sao tidas em conta como arte, associadas ao grafitti.Basta ouvir os grunhinhos de muitos "jovens" numa fila para a cantina numa escola publica.
    E tirando de facto, o mural da ponte da arrabida, nao encontro nenhum outro exemplo que se possa distinguir de vandalismos, a arte.


    P.s - Sim enganei-me. Vê como sempre sou humana Ben Hur?

     
  • Às 1/10/2008 4:25 PM , Blogger Afonso Reis Cabral disse...

    Aqui temos, caros leitores, um excelente exemplo da atmosfera ácida da blogosfera: as lutas de Rita M. e Ben Hur. Again!!

     
  • Às 1/10/2008 10:57 PM , Anonymous Anónimo disse...

    Ácida caro Afonso?
    Eu transpiro doçura e mel pelos que me rodeiam...
    a nao ser que...

    Rita M.

     
  • Às 1/10/2008 11:03 PM , Blogger Afonso Reis Cabral disse...

    Rita,
    como é lógico, o Ben Hur é que espicaça a acidez!

     

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