
Gosto muito do Saramago escritor, gosto muito pouco do Saramago cidadão.
A entrevista que o Saramago cidadão deu ontem ao Diário de Notícias tresanda a mofo. O mofo, ou bolor, é um fungo que tende a aparecer nas coisas velhas, como, no caso dos alimentos, o pão, a fruta podre, mas também pode surgir noutro tipo de materiais como o couro, a madeira, o papel…
Conta-se até que um velho muito velho (daqueles que só existem na mitologia céltica) deixou de se movimentar devidamente e foi “ganhando” bolor, como as restantes coisas que enumerei. A invasão começou pelos olhos secos do senhor, mas logo se propagou pela montanha de rugas, criando pontes filamentosas de um lado ao outro. O busto cedo foi tomado de assalto, assim como o peito que mais parecia uma massa informe de tom branco esverdeado. Só quando todos os centímetros quadrados do corpo do velho estavam a fazer de acampamento ao bolor é que alguém teve a decência de intervir.
Bem, divagações à parte: tudo isto para dizer que o bolor nasce nas coisas velhas e por isso é que a entrevista de José Saramago tresanda.
Continuando. Como já disse, o bolor surge com frequência nos alimentos, quem não viu um pão coberto de uma espécie de névoa branca? E o cheiro, quem não o sente em memória sem deixar de ficar enojado?
Pois bem: as ideias são o pão do espírito e as que alimentam o espírito de Saramago estão cheias de bolor, de tão velhas que são. Era aqui que eu queria chegar. O iberismo que Saramago defende na entrevista que ontem deu ao DN é velho, tão velho como a criação da nacionalidade. Ao longo de oito séculos, foi sucessivamente impingido e contestado. Foi posto em prática durante sessenta longos anos até que D. Luísa de Gusmão proferiu a célebre frase “Antes rainha por uma hora do que duquesa toda a vida.”, instigando assim o marido a lutar pela independência do seu país. E a duquesa, ainda por cima, era espanhola de nascimento.
O iberismo, literalmente tão velho como a Sé de Braga, está caduco.
Em pleno século XXI, José Saramago, Nobel de língua portuguesa, afirma: "Portugal acabará por integrar-se em Espanha." Esta frase, sem qualquer relação com a história, demonstra muito bem que Saramago é um incapaz. Só os incapazes se entregam aos outros para disfarçarem a sua impotência.
Conluindo: Portugal nunca foi nem é incapaz, embora possa gerar impotentes, como é o caso.